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Pescadores desconhecem interesse da China na plataforma continental portuguesa

Doca pesca

As hesitações e as deficiências da resposta europeia à crise abriram claramente as portas à China, que agarrou a oportunidade.
 
Do ponto de vista chinês, é incompreensível um pouco que uma comunidade, que pretende reforçar o seu peso e influência em termos da economia global, reaja desta maneira a uma crise global. Certo é que a China aproveitou essa oportunidade para cimentar a sua posição no seio da União Europeia.
 
Essa é uma discrição muito correcta. No caso de Portugal, e de outros Estados europeus, há uma visão essencialmente de curto prazo, de resposta a problemas imediatos, como os de financiamento.
 
A China, sendo um dos campeões da globalização, tem um Estado extremamente interveniente e que comanda o processo de intervenção na economia global. Se há algo a aprender com a própria experiência chinesa, nomeadamente no caso português, é esta ideia, muitas vezes repetida, que o Estado tem de abandonar o sector empresarial. É uma ideia absolutamente desajustada às exigências e desafios que a economia global coloca. Porque está a perder um conjunto de instrumentos estratégicos para consolidar os interesses portugueses. E é preciso ser pragmático, realista. Não se trata de reconstituir um sector público de grande dimensão, mas também não é considerar que tudo o que é público deve ser necessariamente privatizado. Aliás, há vários exemplos de que a gestão privada nem sempre é eficiente.
 
As PME são um elemento essencial da economia chinesa, e enfrentam problemas complicados, como excesso de capacidade produtiva, tendo necessidade de se internacionalizar. As grandes empresas vão à frente, abrindo o caminho, mas as PME virão a seguir. É de esperar que essa vaga aconteça, através, por exemplo, de fornecedores das grandes empresas, pelo que haverá uma diversificação.
 
A influência é hoje muito mais significativa, não só em termos económicos mas também porque é hoje evidente que a China, que consolidou a sua posição quanto actor global, está activamente a construir a sua presença no Atlântico sul e no Atlântico no seu conjunto. Já manifestou, perante a desactivação da Base das Lajes e a retirada norte-americana, vontade de ocupar essa posição. E a questão dos Açores, que está claramente em cima da mesa, não se reduz à questão das Lajes, embora para a China ter uma base militar no coração da NATO seria algo muito relevante. Há uma outra questão central, na procura da China por recursos naturais, pelo seu controlo, que é a plataforma continental portuguesa.
 
Doca pesca - Sesimbra
Há um interesse enorme, e a aproximação aos Açores também tem a ver com isso. Por parte da China, há uma clara compreensão de que Portugal não tem capacidade financeira para explorar os recursos da plataforma continental, e a capacidade tecnológica também não é suficiente. Da mesma forma, há a percepção de que a Europa vai ser lenta e que a resposta concertada não vai chegar a tempo. Assim, perfilam-se como o parceiro privilegiado.
 
A questão da pesca é hoje essencial para a China, que tem de garantir a alimentação de uma população crescente. Muitos dos conflitos territoriais onde está envolvida, nomeadamente com o Japão, têm a ver também com os recursos piscícolas. A China sabe que, perante os riscos de insegurança alimentar a que está sujeita, tem de garantir essa fonte de abastecimento. Mas há também a questão dos recursos naturais, de exploração do subsolo, que implica investimentos muito significativos. A prazo, esse é também um objectivo estratégico chinês. Se tiverem uma posição forte na economia portuguesa, ficam com condições para condicionar, de forma significativa, as decisões que forem tomadas nessa matéria.

Miguel Santos Neves