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Rádios locais difundem conteúdo com pouco interesse

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Os anos 60 e 70 abriram uma nova era da rádio, quando surgiram, um pouco por toda a Europa, movimentos de rádios piratas que viriam a traduzir-se na liberalização do sector, terminando com o monopólio do Estado.
 
Criou-se uma nova vaga no acesso das populações aos meios de comunicação social, incentivando novas práticas discursivas no meio radiofónico. Os grupos sociais, até então com pouca visibilidade nos media, passaram a dispor de um palco para a apresentação e discussão, na arena pública, dos seus interesses, reivindicações ou simplesmente gostos e modas.
 
No contexto da globalização em que o sector dos media se move, ganha maior importância a diferenciação entre os diferentes meios de comunicação social. A lógica, cada vez mais visível, de uniformização dos conteúdos mediáticos convoca outras formas de comunicação que se assumam como uma alternativa.
 
As rádios locais portuguesas apareceram com o objectivo de criar esse espaço alternativo, mas uma lei do licenciamento demasiado aberta – atribuindo alvarás de emissão em concelhos com um reduzido tecido económico local, capaz de suportar receitas publicitárias suficientes – reformatou a lógica de existência destas emissoras.
 
Com base num trabalho de campo realizado no âmbito da dissertação de mestrado intitulada: As Rádios em Portugal, Informação e Função Social, foram analisados noticiários das rádios do distrito de Setúbal e apresentados alguns dados com a sua respectiva interpretação.
 
As rádios alvo de estudo do distrito de Setúbal foram as seguintes: Rádio Seixal, Rádio Voz de Almada, Rádio Sesimbra FM e Rádio Popular FM.
 
 
radio1
radio2
 
Durante o período do estudo foram gravados e ouvidos 385 noticiários entre as 8 e as 19 horas, num total de 1626,36 minutos. Foi feita a análise de conteúdo a 1962 notícias.
 
Com a realização deste estudo pretendeu-se determinar de que forma é reproduzida a realidade local no discurso informativo difundido nas rádios locais portuguesas.
 
Foram organizadas notícias de acordo com as seguintes categorias: interesse local, nacional e internacional, vozes dos protagonistas reproduzidas nos noticiários, secção temática e abertura de noticiários.
 
Após a análise de conteúdo realizada aos noticiários do corpus, verificou-se que as rádios locais difundem menos notícias com interesse local do que nacional. Estas representam 54,28%, enquanto a percentagem de notícias locais é de apenas 26,75%.
 
O discurso jornalístico produzido nas rádios locais portuguesas está fortemente influenciado pelos constrangimentos organizacionais das emissoras, caracterizadas pela escassez de recursos humanos e nalguns casos técnicos.
 
O mimetismo, consubstanciado na colagem à agenda dos media nacionais, resulta num empobrecimento do discurso jornalístico, uniformizando-o e contribuindo para o fechamento da agenda pública e da sua consequente discussão.
 
A análise de caso apresentada reflectiu uma realidade específica num período determinado. Contudo, os dados apresentados colocam-nos perante a questão de saber qual a verdadeira função social das rádios locais portuguesas na preservação da identidade local, na criação de espaços de resistência social face à hegemonia dos discursos das elites e na formação da opinião pública local.
 

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